CONDROMALACIA OU DOR FEMOROPATELAR: MITOS E VERDADES

A condromalácia representa um amolecimento da cartilagem que reveste a patela (rótula) e que ocorre em decorrência do aumento da pressão de contato entre a patela e a tróclea, que é um sulco sobre o qual ela fica apoiada. Pode também ser reconhecida por outros nomes como: dor femoropatelar; hipertensão patelofemoral; condropatia patelar; ou síndrome patelofemoral.


Sabe-se que uma cartilagem articular lesada tem potencial de cicatrização muito limitado. Isso se deve às propriedades histológicas do tecido cartilaginoso que, ao contrário da maioria dos tecidos do corpo, possui pouquíssimas células (hipocelularidade), não possui vasos sanguíneos (avascularidade), é aneural, ou seja, não possui terminações nervosas e é riquíssimo em água. Consequentemente, uma vez lesada, a reação inflamatória de articulações é muito pequena e a possibilidade de reparo, quase nula.



A condromalácia da patela é a causa mais comum de dor na frente do joelho, mas erroneamente muitos atribuem qualquer dor na parte da frente do joelho à condromalácia. Tendinite patelar, tendinite do quadríceps e inflamação na gordura de Hoffa são outros problemas que também podem causar dor na parte da frente do joelho, mas que devem ser tratadas de forma completamente diferente.

Entre os fatores que contribuem para a sobrecarga na patela, devemos considerar, principalmente:

  • Mau alinhamento patelar (subluxação da patela)

  • Fraqueza de músculos específicos dos membros inferiores, especialmente o quadríceps, os abdutores do quadril (glúteo médio) e os rotadores externos do quadril;

  • Restrição da flexibilidade do quadríceps

  • Pronação excessiva do pé.

A sobrecarga, desta forma, está muito mais relacionada a uma mecânica ruim de movimento do que a um excesso de atividades em si. Muitos pacientes apresentam uma rotina bastante sedentária, mas mesmo nestes casos a pressão e a força à qual a cartilagem da patela está sendo submetida pode ser maior do que no caso de atletas que realizam esforços muito mais intensos.

A condromalacia acomete desde pessoas completamente sedentárias até atletas profissionais. Logicamente que, devido ao nível mais intenso de atividade entre os atletas, um desequilíbrio mais pontual pode ser o suficiente para o desenvolvimento da doença, ao passo que nos sedentários costuma haver uma descompensação mais generalizada.


Todos os dias, blogs e sites que abordam a condromalácia patelar recebem milhares de dúvidas e comentários. Na grande maioria das vezes, são pessoas que, frustradas em um tratamento sem sucesso, buscam tirar duvidas com a experiência de outras pessoas.

Seguem abaixo as principais perguntas que tenho recebido no meu site e nas redes sociais:

1. Quem tem condromalácia patelar não pode praticar esportes?

MITO!

A condromalácia patelar está ligada distúrbios biomecânicos e após melhora de sintomas, é imprescindível o fortalecimento seguido de prática regular de esportes de baixo impacto, prevenindo sua recidiva.

2. Mulheres tem mais chance de desenvolver condromalácia patelar que os homens?

FATO!!

Mulheres possuem fatores anatômicos neuromusculares e hormonais que predispõem a doença.

3. Pratico muito esporte. O impacto vai sobrecarregar minha cartilagem e levará a condromalácia patelar?

MITO!

A crença de que o esporte degrada mais as articulações caiu por terra há cinco anos atrás. Estudos recentes provaram que atividade física libera enzimas anti-inflamatórias (conhecidas como interleucinas IGF-1,TGF-BETA, IL4,IL10) no joelho que protegem a sua degeneração. Isso explica a taxa de desgaste de joelho ser infinitamente maior em pessoas sedentárias.

4. Fiz uma Ressonância do Joelho e no laudo consta que tenho condromálacia patelar. Este exame é suficiente para meu diagnóstico?


MITO!

Desequilíbrios musculares e distúrbios biomecânicos estão intimamente ligados à origem da doença. Na ressonância, é muito comum imagens de degeneração da cartilagem, mas muitas vezes trata-se do envelhecimento fisiológico da cartilagem e a dor do paciente está em outro ponto do joelho.

Por isso, o diagnóstico de condromalácia patelar tem que ser dado pro médico que esteja familiarizado com o gesto esportivo que o paciente pratica. Após análise biomecânica, observando-se força excêntrica e sincronismo muscular, o médico deve observar as imagens de perda de cartilagem da patela e confrontá-las com o ponto de dor do paciente. Infelizmente, hoje muitos pacientes têm diagnostico de condromalácia patelar, quando na verdade, a lesão trata-se de uma tendinite patelar, hoffite ou plica sinovial inflamada.

5. Quem tem condromalácia patelar pode evoluir para artrose?

FATO!!!

Uma vez lesada a cartilagem, a liberação de enzimas inflamatórias pode erodir o joelho como um todo. Motivo pelo qual, medidas condro-protetoras como a viscossuplementação são necessárias, ao menos na fase inicial, para prevenir a progressão da doença.

6. A musculação é contra-indicada para quem tem a condromálacia patelar?


MITO!!!

Particularmente, trato a doença em 3 fases:

  1. Regenerativa, onde o fisioterapeuta age tirando a dor e realizando a ativação inicial da musculatura da coxa e quadril.

  2. Preventiva, onde o trabalho inicial do fisioterapeuta é continuado em academia, tendo muito cuidado com a angulação de proteção de cada máquina e ao padrão de contração muscular. Nesta fase, é comum haver erro de e execução e exige comunicação entre médico-fisioterapeuta e educador físico. Por este motivo, peço sempre a visita do personal trainer ao meu consultório ou encaminho para um profissional que tenha sido treinado pela minha equipe.

  3. Retorno ao esporte, onde a equipe de profissionais prescrevem a periodização do treino e retorno GRADUAL ao esporte.

7. Tenho condromalácia e nunca mais vou poder voltar a correr?

MITO!

Como descrito no tópico acima, as 3 fases não podem ser negligenciadas. Para a corrida de rua, esporte de endurance muito popular nos dias de hoje, tomo alguns cuidados adicionais com meus pacientes, que incluem a realização de testes funcionais para avaliação de equilibro muscular, teste de baro-podometria, buscando possíveis pisadas patológicas como supinadores e pronadores extremos. Fatores fisiológicos individuais como níveis sanguíneos de GH, testosterona e vitamina D são de suma importância na prevenção de lesões de over-use.

8. Estou muito pesado(a). Isso pode agravar ainda mais minha condromalácia patelar?

FATO!

Para se ter uma ideia, a cada passo que a pessoa dá, duas a quatro vezes seu peso corporal é transmitida através da articulação do joelho. Assim, quanto mais você pesa, mais forte é o impacto em seu joelho.

Estudos mostram que, ao se perder 10 kg de peso, reduz-se em ate 20% da dor para joelhos com condromalácia.

9. Meu ortopedista me receitou Glucosamina e Condroitina. Segundo ele, isso vai ajudar na prevenção do agravo da doença

MITO!

Particularmente, considero mito por não haver estudos de nível de evidência suficiente que comprovem isso. Talvez por isso a American Academy of Orthopaedic Surgeons (AAOS) nos Estados Unidos tenha publicado um relatório em 2017 considerando o tratamento como ineficiente.

Particularmente, prefiro que meus pacientes realizem exercícios de baixo impacto como a natação, deep-running e bicicleta por liberarem enzimas anti-inflamatórias no joelho que utilizarem este produto que, aqui no Brasil, tem preço proibitivo.


Para o efeito condro-protetor, prefiro o uso do Acido Hialurônico por haver nível de evidencia maior em seu efeito de modificação da evolução da doença.

10. Se minha doença não melhorar, pode ser que eu precise de tratamento cirúrgico

FATO!

Apesar de ter indicação muito limitada, alguns pacientes, principalmente mulheres na 4ª década de vida, com degeneração avançada da faceta patelar lateral da patela, associada a hiper pressão lateral, podem se beneficiar com o tratamento cirúrgico.


ATENÇÃO

Se você tem dor, NÃO se auto-medique sem saber a causa das suas dores.

Não existe medicamento mágico, pomada, massagem, técnica revolucionária, exercício único! Esqueça isso!

Não existe receita de bolo, ou seja, cada paciente precisa de um tratamento específico para seu caso e por isso uma avaliação é fundamental!

Outra coisa, você pode até fazer um exame, mas não acredite em tudo que vai ler!

Leve este exame a um bom profissional que saiba ler e interpretar bem o laudo, mas faça PRINCIPALMENTE uma boa Avaliação Física utilizando testes Ortopédicos e Neurológicos com embasamento Científico! Só assim você vai tratar o que de fato te causa dor!


No passado as pessoas eram obrigadas a sofrer, pois estas patologias não tinham cura e nem